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Livro reúne informações sobre as 252 etnias indígenas que restam no Brasil

Indígenas de outras aldeias do Parque Indígena do Xingu, no Mato Grosso, chegam para participar do Quarup na aldeia Yawalapiti. Foto: Lalo de Almeida - 14.ago.2016/Folhapress

Nesta segunda-feira (17), brasileiros serão confrontados com uma radiografia diante da qual têm preferido virar a cara: o volume “Povos Indígenas no Brasil 2011/2016”.

É a 12ª edição do livro apelidado de “Pibão”. Chega com 827 páginas em formato grande (21 x 28,5 cm), fazendo justiça plena à alcunha.

Compilada pelos antropólogos do Instituto Socioambiental (ISA) desde a década de 1980, a obra reúne informações sobre as 252 etnias que restam no país. Ou serão 305, como diz o IBGE?

O leitor encontrará uma relação exaustiva dos 252 identificados pelo ISA. De aikanã, aikewara e akuntsu a zo’é, zoró e zuruahã, estão todos lá, com as respectivas línguas e estimativas de população.

O volume radiografa a situação dos índios no país em 160 artigos e boxes inéditos, 745 notícias colhidas em 156 fontes, 243 fotos e 27 mapas.

Na realidade, ninguém sabe ao certo nem quantos são os índios que vivem hoje no Brasil. Segundo o Censo de 2010, 896.917 pessoas entrevistadas se declararam indígenas. Pelo levantamento da ONG, fruto de várias fontes consultadas em datas variadas, são 715.213. A incerteza também ronda o número preciso de línguas indígenas faladas no país. O ISA estima algo entre 150 e 160, enquanto o IBGE registra 274.

A última cifra carrega uma informação menos confiável, por se originar de autodeclarações e comportar sinonímia nas denominações dos idiomas. A primeira, por outro lado, tem o grau possível de qualidade antropológica e linguística.

Uma coisa porém é certa: muitas dessas línguas, quando não o povo todo que a fala, estão ameaçadas de extinção. Menos de 38% dos índios falam o idioma de seus ancestrais, e mais de um terço deles vive em cidades, onde a língua materna tende a ser substituída pelo português.

A linguista Bruna Franchetto, do Museu Nacional, lamenta em seu texto no “Pibão” a escassez de estudos sobre toda essa diversidade falante. Por falta deles, cita dados por ela qualificados como “desatualizados” para concluir que o panorama é desanimador: na média, há meros 250 falantes por língua.

Várias dessas línguas contam hoje com menos de dez falantes. A última pessoa fluente no idioma apiacá morreu em 2012. Tornou-se impossível saber como se diz “é o preço do progresso” em apiacá (se é que esses conceitos existiam nessa língua).

Alguém mais insensível poderá dizer, nesta quadra em que a crise política ocupou todos os espaços do debate público, que a perda não é tão grande. Mas, como escrevi outro dia, “se não for por generosidade e inteligência, que ao menos se respeite a lei”.

A Constituição de 1988 consagra o princípio de que os povos indígenas têm o direito de sobreviver: “São reconhecidos aos índios sua organização social, costumes, línguas, crenças e tradições, e os direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam, competindo à União demarcá-las, proteger e fazer respeitar todos os seus bens”.

Para um povo indígena, território é tudo. Ou seja, bem mais que o valor de uso ou de troca na mira dos ruralistas e conservadores locupletados no Congresso e em todos os covis do poder público.

Se depender destes, aqueles ficariam sem suas terras. Que se lixe a Constituição.

A deixa foi dada, entre outros, pelo ministro da Justiça, Osmar Serraglio, em entrevista recente à Folha : “O que acho é que vamos lá ver onde estão os indígenas, vamos dar boas condições de vida para eles, vamos parar com essa discussão sobre terras. Terra enche a barriga de alguém?”.

Sim, já existem 480 terras indígenas no Brasil reconhecidas pelo Estado. Elas ocupam mais de 1 milhão de quilômetros quadrados, 12,5% do território nacional, mas mais de 98% de sua área se encontra na Amazônia Legal.

Restam 224, porém, por demarcar e homologar, que acrescentariam ao usufruto de 252 povos mais 1,3% do Brasil. Contra isso se levantam nada menos que 189 iniciativas legislativas no Congresso, como registra o “Pibão”, a maioria contra os interesses dos índios.

Não deixa de ser também um bom retrato do Brasil.

Link Curto: http://bit.ly/2onfLkB

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