Fan Page - Boletim Ambiental
Showcase Page - Boletim Ambiental
Boletim Ambiental

Discurso ‘verde’ tem pouco impacto no desempenho de companhias na Bolsa, diz estudo

Após turbulência econômica e crises éticas de suas principais empresas, índice de sustentabilidade da Bovespa é alvo de questionamento

Um selo que ateste que determinado negócio é sustentável deveria atrair investidores e facilitar a obtenção de crédito para as empresas. Mas segundo especialistas, isso não vem acontecendo.

O estudo “Sustainability indexes: why join in?” (“Índices de Sustentabilidade: por que entrar?”, em tradução livre), realizado pelos pesquisadores Renato Orsato, Alexandre Garcia, Wesley Mendes da Silva, Roberta Simonetti e Mario Monzoni, por exemplo, identificou que não há evidências de que o Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE) da BM&FBovespa seja, necessariamente, um requisito ou precursor de benefícios financeiros.

Além disso, o ISE tem tido cada vez menos companhias candidatas à adesão. Entre as seleções de 2011/2012 e 2016/2017 o número de interessadas caiu quase 20%. Em 2011 foram 48 inscritas; em 2012 e 2013 havia 45 candidatas; em 2014 foram 46; em 2015, 42, e em 2016 apenas 39.

Outro argumento recentemente derrubado é o de que as empresas do ISE têm valorização superior à do Ibovespa, principal índice de ações do mercado brasileiro. De fato, desde sua criação em 2005, o índice tem uma valorização média superior à do Ibovespa (149,33% ante 101,49%). Porém, em 2016 o Ibovespa registrou alta de 38,93%, superior ao rendimento de 13,79%, do ISE. Até fevereiro de 2017, o movimento continuou, com alta de 10,68% contra 5,14%, respectivamente.

Segundo especialistas, essa alteração no comportamento das ações acontece porque a composição das duas carteiras é muito distinta. Diferente do ISE, o Ibovespa conta com empresas de commodities – produtos que servem como matéria-prima -, que estão muito mais suscetíveis a mudanças repentinas e, consequentemente, valorização ou depreciação rápida dos papéis. Essa explicação mostra que a comparação entre os dois índices – assim como as conclusões tiradas a partir desse raciocínio – não seria válida.

“O importante ao fazer essa análise é entender que a perspectiva do ISE é de longo prazo. A ideia de sustentabilidade é uma perspectiva de maior resiliência, de maior capacidade de reagir a mudanças do cenário, e não necessariamente acompanha essas variações mais curtas do mercado”, explica Aron Belinky, coordenador do Programa de Produção e Consumo Sustentáveis da Fundação Getúlio Vargas.

Teste de resistência

O ISE foi criado em 2005 com o objetivo de reunir as empresas com as melhores práticas de sustentabilidade, conceito que engloba ações que buscam impacto ambiental e social positivos, eficiência econômica e governança competente e transparente. Para fazer parte do índice, as companhias precisam responder a um questionário especificando suas práticas em temas como mudanças climáticas, corrupção e conflitos de interesse.

Essa seleção serviria para mostrar ao mercado que aquelas empresas são responsáveis e cuidadosas em todas as suas atividades e processos produtivos. Por isso, ela conseguiria perceber mais cedo eventuais oportunidades e riscos e se planejaria melhor para lidar com eles. O resultado seria uma companhia mais sólida no longo prazo, que atrairia investidores, teria suas ações valorizadas e aumentaria seu valor de mercado.

Para colocar a teoria à prova, o documento “Sustainability indexes” analisou dezesseis estudos realizados entre 2005 e 2013 a respeito do índice e do desempenho das companhias que fazem parte dele na Bolsa. Destes, nove trabalhos mostraram que não há relação entre sustentabilidade corporativa e o valor de mercado da companhia. Sete concluíram que nos dias antes e depois da divulgação da nova carteira do ISE, as mudanças no preço das ações das empresas envolvidas não foram significativas.

De todos os trabalhos analisados, apenas dois constataram que existe algum tipo de retorno econômico às empresas que fazem parte da carteira. Um deles, ao comparar as ações do índice com um grupo de controle (papéis de companhias da mesma indústria ou setor), concluiu que existia uma diferença estatística significante entre os dois grupos, mas apenas nas datas perto do anúncio da nova carteira. O outro documento avaliou a influência de cinco variáveis na decisão de 124 empresas ao aderir ao índice, mas concluiu que a dimensão das companhias e do setor era o que efetivamente influenciava a adesão delas.

Rafael Weber, gerente de Research da gestora de investimentos Geração Futuro, também defende a ideia de que não há retornos financeiros diretos para as empresas que fazem parte do ISE. Ele exemplifica dizendo que varejistas do setor alimentício, com certificações de sustentabilidade ou não, têm mais chance de crescer no longo prazo em um cenário como o brasileiro, já que “as pessoas não deixam de comer e a renda tende a aumentar”. Diferente, por exemplo, de empresas como a Natura, que vem reavaliando seu modelo de negócio – com consultores como a principal forma de venda – após perder espaço para perfumarias.

“A Natura percebeu a situação e vem mudando. Mas a própria mudança representa um risco. Ela está no ISE, mas um banco, olhando ela hoje, não concede crédito de olhos fechados”, explica. “No banco, é muito mais importante a empresa ter capacidade de gerar fluxo de caixa positivo do que ter algum selo.”

O especialista em Governança Corporativa, Alexandre Di Miceli, professor da Fecap e sócio da Direzione Consultoria, explica que o índice vem se desgastando. Além de não ter sido provado que ele traz benefícios econômicos diretos, a presença de empresas envolvidas em polêmicas relacionadas à gestão – como é o caso da BRF, recentemente investigada na Operação Carne Fraca; e da Braskem, que assinou acordo de leniência após caso de corrupção na Petrobrás – faria com que outras companhias não tenham tanto interesse em participar da seleção.

“Em 2005, quando saiu a primeira rodada, as empresas estavam desesperadas para fazer parte. Na época, todo mundo falava em governança, sustentabilidade, mas quando veio a crise, ficou claro que isso não era algo central para elas. Ao longo dos anos, o índice se desgastou e o número de candidatas caiu”, explica.

Mas o fato de não ter sido comprovado de que os selos de sustentabilidade trazem necessária e diretamente um retorno financeiro, não quer dizer que investir em ações sustentáveis não seja vantajoso para a empresa. É justamente a necessidade de “provar” aos executivos que a companhia terá algum benefício econômico com essas práticas que atrapalha desenvolvimento do conceito no Brasil, como explica Di Miceli.

“A bolsa tenta convencer as empresas dizendo ‘invista no ISE que dá mais dinheiro’. E não é isso. Tem que apelar pelo lado moral, não econômico. E os fundos de investimento responsáveis, que pensam em colocar dinheiro somente em empresas realmente comprometidas têm crescido muito no mundo. O investidor deve colocar dinheiro nessas empresas por entender que elas são mais responsáveis e em uma situação extrema ela não vai perseguir o retorno a qualquer custo, ela vai perseguir sustentabilidade”, afirma.

Weber, da Geração Futuro, explica que mesmo que as certificações de sustentabilidade não sejam um critério fundamental para os investidores ou para os fornecedores de crédito, elas funcionam como um incentivo para que aquela companhia seja vista de maneira diferente. “Está longe de ser fundamental, mas são um bônus, uma estrelinha que pode diferenciar aquela empresa”, diz.

Link Curto: http://bit.ly/2p1IIDJ

Seja o primeiro a comentar esta notícia!

Comentário

Seu e-mail não será publicado.


*