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País ‘atrasa’ economia florestal, dizem especialistas

O Brasil tem a oportunidade de construir uma economia de base florestal vigorosa ao cumprir a meta de restaurar 12 milhões de hectares de florestas até 2030, como consta nos compromissos assumidos no âmbito do Acordo de Paris. Esta é a boa notícia. A má é que o processo está atrasado e não há estratégia política e de financiamento que pavimentem o caminho.

Esta é uma das mensagens de pesquisadores que se reuniram em workshop promovido pela Universidade de Brasília e Rede Clima, com apoio da Climate and Land Use Alliance (Clua). O documento será entregue ao Ministério do Meio Ambiente.

“A restauração florestal com base na biodiversidade pode ser um pilar para o desenvolvimento rural sustentável”, acredita a professora Mercedes Bustamante, do Departamento de Ecologia da Universidade de Brasília (UnB) e uma das maiores especialistas em Cerrado do país. “O problema é que estamos atrasados nesse debate. E, para que a meta seja cumprida, tem que ser uma prioridade nacional.”

Os pesquisadores indicam que para o país cumprir sua meta de restauração é preciso ter claro qual será a estratégia e a governança, ter transparência e coordenação de políticas públicas.

A meta, definida em 2015 na gestão de Dilma Rousseff, não tem detalhamento. Qual será a estratégia para monitorar a regeneração natural? Onde vai se dar? Quanto se plantará de nativas e de exóticas? Como será feito o monitoramento do sequestro de carbono? Quais biomas serão contemplados? Com quais mudas? Como será o banco de sementes? Qual o financiamento para o produtor? A lista de dúvidas dos pesquisadores é extensa – e o prazo para o cumprimento da meta é 14 anos.

Também não há indicação de onde virão os recursos para implementar a medida. Pelas contas do Instituto Escolhas, de São Paulo, este processo de restauração pode custar perto de R$ 52 bilhões e gerar 215 mil empregos.

“É possível restaurar, outros já fizeram, não seremos os primeiros”, diz o advogado Raul Silva Telles do Valle, que publicou um artigo sobre o tema na revista da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN). Ele analisou iniciativas do gênero na Coreia do Sul, Costa Rica, China, Níger e Estados Unidos.

Telles do Valle conta que em 1935 os EUA fizeram um diagnóstico e viram que metade do território sofria avançados processos de erosão do solo em função do desmatamento e dava sinais de estresse hídrico. “Mas eles reagiram: replantaram florestas públicas, criaram parques nacionais, reformaram áreas agrícolas e recuperaram áreas degradadas”, diz ele, atualmente chefe de Assuntos Jurídicos da Secretaria do Meio Ambiente do Distrito Federal.

Desde 1985, os EUA financiam, com recursos orçamentários, agricultores que restauram florestas em áreas que foram abertas por lavouras. Foi assim que o país conseguiu restaurar 15 milhões de hectares entre 1985 e 2007 e outros 19 milhões de vegetação nativa.

“Em todos os países em que estudei processos de restauração, o governo teve papel central, nunca apático. E investiu. Se não investirmos de verdade, se os agricultores para restaurar tiverem que colocar a mão no bolso por conta própria, não vai acontecer”, diz o pesquisador. “Não aconteceu no passado, não acontecerá no futuro.”

“Restaurar é uma atividade multipropósito, pode atender diferentes demandas”, diz Mercedes. Ela enumera: pode ser uma forma de se conter um processo erosivo, pode ser uma estratégia de conectar fragmentos importantes para a biodiversidade ou estar associada à preservação de recursos hídricos. “Tudo isso pode ser um elemento que agregue uma fonte de renda para os produtores rurais”, afirma.

Para Mercedes, no entanto, o proprietário rural só irá aderir ao programa se a restauração for um processo simples. “Com toda a burocracia que ele já tem, se tornarmos o processo da restauração complicado, sem acesso a sementes e mudas com facilidade, sem assistência técnica, ele não irá aderir”, alerta.

“Na elaboração das políticas é preciso articular o setor privado e público, a academia, os proprietários. Se não houver esse diálogo, o esforço está fadado a não prosperar.” Ela continua: “Se você pensar o que foi o desenvolvimento da agricultura brasileira, que rompeu paradigmas, mas teve apoio enorme de pesquisa e recursos, temos uma história de sucesso que pode ser claramente reproduzida no setor florestal. Mas é um caminho que tem que ser construído. O que a gente quer é discutir esta estratégia”, diz Mercedes.

Link Curto: http://bit.ly/2fMArDQ

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